Início do conteúdo

17/08/2016

ONU e Fiocruz discutem políticas públicas para juventude

André Costa e César Guerra Chevrand (Agência Fiocruz de Notícias)


Com o desafio de construir uma agenda de políticas públicas voltada para os jovens brasileiros, a Organização das Nações Unidas e a Fundação Oswaldo Cruz promoveram uma série de atividades pelo Dia Mundial da Juventude, na última segunda-feira (15/8), em Manguinhos, no Rio de Janeiro. A programação foi marcada pela ampla participação de jovens lideranças locais, que promoveram atividades culturais e políticas e apresentaram suas principais reivindicações na área da saúde.

Lideranças juvenis interagiram diretamente com representantes da Fundação Oswaldo Cruz e das Nações Unidas (Foto: ONU Brasil)
 

Inspirado pelas Olimpíadas, sediadas pela primeira vez na América de Sul, o tema das celebrações do Dia Mundial da Juventude foi definido como Juventudes, Esporte e Desenvolvimento: rota para 2030. Participaram do encontro o enviado especial do secretário-geral da ONU para Juventude, Ahmad Alhendawi; o assessor especial do secretário-geral da ONU para o Esporte, o Desenvolvimento e a Paz, Wilfried Lemke; o coordenador residente do Sistema ONU no Brasil, Niky Fabiancic; e o representante do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) no Brasil, Jaime Nadal. O UNFPA coordena o Grupo Assessor Interagencial sobre Juventude da ONU.

A comitiva das Nações Unidas foi recebida no Castelo de Manguinhos pela vice-presidente de Ensino, Informação e Comunicação, Nísia Trindade, e pelo vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde, Valcler Rangel, além de outros representantes de unidades da Fiocruz. O objetivo do encontro foi aprofundar o termo de cooperação inicial entre a Fundação Oswaldo Cruz e o Fundo de População das Nações Unidas, que trata de zika e direitos reprodutivos.

De acordo com Valcler Rangel, a reunião foi importante para definir os próximos passos da parceria, que será ampliada para incluir outros temas sensíveis à juventude e valorizar a cooperação entre países em desenvolvimento. “Esse encontro faz parte de um processo de discussão que a gente desenvolve com a Fundo de População desde o início de ano. Há muita convergência entre as nossas ideias. Em setembro, nós vamos programar uma oficina de trabalho para preparar o plano para os próximos cinco anos”, afirmou o vice-presidente da Fiocruz.

Protagonismo da juventude

Cerca de 200 jovens dos mais variados perfis sociais participaram das atividades pelo Dia Mundial da Juventude, em Manguinhos. A sede do evento remetia a vínculos antigos entre a Fiocruz e as Nações Unidas: a Tenda da Ciência foi criada para a ECO-92, sendo posteriormente transferida para o campus da Fundação.

A abertura das atividades, como definiu a mestre de cerimônias Fernanda Lopes, do UNFPA, foi no “ritmo energético e de celebração da juventude”: uma apresentação do Dream Team do Passinho, grupo composto por cinco jovens de favelas cariocas. Dentre os destaques do show, a música Mais Direitos, menos zika, lançada em parceria com o fundo da ONU em campanha pelos direitos reprodutivos das mulheres. Ao fim do espetáculo, como “reconhecimento pela determinação e compromisso com a causa da juventude”, todos os membros do Dream Team receberam certificados da ONU, e Lellêzinha, única integrante mulher do grupo, foi nomeada Amiga do UNFPA Brasil para a Juventude.

A roda de conversa com as autoridades veio em seguida. O presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha, exaltou o Dream Team, observando que a letra da música “traz palavras de profunda reflexão”. "Bebê com microcefalia, o pai vai embora: este verso me fez pensar em consequências muito danosas do zika. Ele remete a um problema muito sério, muitas vezes ignorado quando se pensa sobre o vírus”, disse Gadelha. O presidente afirmou também que a Agenda 2030, adotada em junho pela Fundação, exige “rever radicalmente o que entendemos por modelo de desenvolvimento, assim como as responsabilidades individuais e coletivas. Somente assim poderá haver sustentabilidade e inclusão social reais”.  

Em seguida, uma série de discurso de encorajamento e elogio ao poder dos jovens se sucedeu. A Secretária de Promoção da Igualdade Racial, Luislinda Valois, convocou a juventude negra a seguir seu exemplo e ocupar espaços de poder, reforçando também a importância de se votar em candidatos que não sejam brancos; Niky Fabiancic, do sistema ONU no Brasil, defendeu a música e o esporte como ferramentas de transformação social, além de se somar a Gadelha e afirmar que “o Brasil precisa de um novo modelo de desenvolvimento, diferente do industrial do passado”; o assessor especial do secretário-geral da ONU para o Esporte, o Desenvolvimento e a Paz, Wilfried Lemke elogiou todos os brasileiros pelas Olimpíadas, realizadas em condições “muito difíceis”.

O tom otimista foi interrompido pelo presidente do Conselho Nacional da Juventude, Daniel Souza, ao afirmar que “juventude parece uma palavra genérica, que diz tudo e não parece dizer nada”. Souza disse que jovens “inadequados”, que não se encaixam “no poder racista, homofóbico, lesbofóbico, transfóbico” não podem ser deixados de lado, e que esperava que o evento servisse para trazer visibilidade a estes segmentos negligenciados da população. Após dizer que “não é possível falar de juventude hoje sem lembrar dos jovens que ocuparam escolas em vários estados”, ele encerrou sua fala pedindo maior participação social nos mecanismos de poder.

As vozes das minorias

Após uma breve fala do enviado especial do secretário-geral da ONU para Juventude, Ahmad Alhendawi, que frisou a necessidade de “se empoderar os jovens”, chegou a hora mais esperada: palestrantes jovens de diversas minorias, incluindo mulheres, índios, negros, moradores de favelas, deficientes físicos e refugiados, entre outros, tomaram a palavra, compartilhando suas experiências e defendendo suas posições.

Em comum a eles, uma grande insatisfação e revolta com o funcionamento predominante da sociedade, assim como um desejo de construção das próprias narrativas não só no futuro, mas também no presente. Este foi o caso da primeira jovem a falar, a ativista trans Ayune Bezerra, da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Ayune lembrou que, enquanto as Olimpíadas são um “momento para quebrar recordes”, o Brasil guarda os índices mais altos de outros indicadores: segundo a organização não governamental (ONG) Transgender Europe (TGEU), o país é o que mais mata travestis e transexuais no mundo, e a expectativa para pessoas trans é de apenas 35 anos. “Para cumprir a Agenda 2030, os legisladores precisam começar a governar pela população”, completou.

Situação dramática também foi a relatada por Adel Bakkour, que nasceu na Síria e veio como refugiado para o Rio de Janeiro há três anos. Bakkour disse que não saiu de seu país por opção, mas para fugir da guerra e do preconceito. O jovem contou que, uma vez no Brasil, suas maiores dificuldades de adaptação foram com a língua e para encontrar moradia; ainda assim, perseverou e se tornou professor de árabe. “Estar em um país como refugiado não significa que deixamos de estar ativos. Sempre vamos ter nossos motivos para continuar nossas carreiras: só precisamos de chances para construir um caminho”, afirmou.

A história do jovem sírio tem paralelos indiscutíveis com desafios enfrentados por pessoas nascidas no próprio território nacional, como Maria Luiza da Silva de Souza, representante da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde. A ativista de 23 anos compartilhou parte de sua difícil e heroica trajetória de vida: filha de uma ex-presidiária analfabeta, entrou na escola apenas aos nove anos, onde sofreu intolerância religiosa e racial. O preconceito impactaria sua saúde, a levando a desenvolver depressão. Uma professora, contudo, percebeu e acreditou em seu potencial, a convidando para dividir o mesmo lar e a incentivando a continuar os estudos. Como resultado, hoje Maria Luiza cursa filosofia na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Questões de saúde foram abordadas também por Jonatan Finkler, da Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids. O rapaz contou que, para além do ataque promovido no organismo pelo vírus do HIV, jovens soropositivos também precisam conviver e enfrentar violência física, moral e psicossocial diariamente. Segundo Finkler, são necessários maiores esforços e recursos melhor aplicados para encontrar uma cura para a doença. “Somos a geração que acredita que é possível pôr fim à Aids”, afirmou.

A ordem ‘fuzilocêntrica’

Riscos à saúde provocados não por um vírus, mas por problemas sociais foram apresentados por Jorge Luís, estudante de direito que trabalha no jornal Fala, Manguinhos!: “ser jovem, negro e morador de favela é um sério risco à vida”, disse. Luís definiu a ordem estabelecida no Brasil como “fuzilocêntrica”, e as frequentes operações policiais na comunidade onde vive como “um extermínio”. “Penso em 2030 como um jovem que não sabe se estará vivo amanhã”, afirmou.

O jovem também aproveitou a oportunidade para, assim como alguns de seus colegas, problematizar aspectos do sistema político internacional e do próprio evento. Um dos últimos oradores, afirmou que gostaria de ter falado antes das figuras de autoridade: “queria ter sido ouvido com auditório lotado, logo depois do Dream Team ter incendiado a todos”, disse. Outra problematização foi trazida por Adrielle Saldanha, do Conselho Nacional da Juventude (Conjuve), que afirmou que “a Agenda 2030 deixa muito a desejar no que diz respeito à juventude, mas é a que temos. Precisamos expandi-la e melhorá-la”. Já o jovem índio Alexandre Kuaray Mirim, pesquisador do Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Bocaina, criticou os adultos que deixaram a sala antes da conclusão do evento, afirmando que esta atitude seria impensável em seu povo.

Nas considerações finais, a vice-presidente de Ensino, Informação e Comunicação da Fiocruz, Nísia Trindade, reforçou o compromisso da Fundação com os direitos da juventude, informando que uma agenda voltada exclusivamente para “as juventudes”, como enfatizou, está em elaboração na instituição. Lima recordou sua própria juventude, vivida sob a ditadura militar, para dizer que os direitos dos jovens são inexoráveis à democracia. Por fim, destacou o que, segundo ela, unia a todos ali presentes: a mobilização para transformar o mundo. “Eu queria dizer que foram várias juventudes, várias experiências relatadas aqui, e cada uma delas nos remete a uma vivência a um tipo de exclusão, mas todas elas falam de um projeto e de um futuro. É impossível pensar o futuro, uma Agenda 2030, sem colocar a juventude no centro dessa agenda”, disse.

Voltar ao topo Voltar