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02/01/2008

Museus interativos de ciência favorecem ensino dos fenômenos da óptica

Renata Moehlecke


Investigar o impacto de atividades relativas ao ensino dos fenômenos da óptica em museus de ciência como parte do aprendizado escolar de alunos do ensino fundamental: este foi o principal objetivo da dissertação da física Grazielle Rodrigues Pereira, mestre em ciências pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC) e professora do Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET Química). O estudo demonstrou que essas experiências podem ser ótimos instrumentos de ensino de ciências e de transformação de concepções errôneas dos estudantes.


 

 Rapaz brinca com espelho no Espaço Ciência Viva

Rapaz brinca com espelho no Espaço Ciência Viva


“É de conhecimento geral que cursos de ciências (física, química e biologia) oferecidos nas escolas dos ensinos fundamental e médio são voltados, majoritariamente, ao fornecimento de informações, onde o desenvolvimento emocional dos estudantes e a bagagem cultural que permeiam as concepções espontâneas de cada um, bem como o aspecto experimental das ciências, não são levados em consideração”, afirma a pesquisadora. Ela explica que é comum o aluno ter noções preconcebidas sobre os fenômenos ópticos e que o ensino desvinculado dos aspectos práticos pode tornar o aprendizado mais difícil, propiciando uma apreensão incorreta dos conceitos cientificamente aceitos.


Isso acarretaria dificuldades de estabelecer relações entre conhecimentos transmitidos em sala de aula e suas respectivas aplicações no cotidiano. “Essas disciplinas têm sido lecionadas de maneira descontextualizada e excessivamente matematizada”, diz Grazielle. “As avaliações focalizam mais a capacidade de memorização do que o hábito de estudo, causando um grande desinteresse dos alunos pelas ciências”.


Segundo a pesquisadora, os museus de ciência e suas atividades educacionais possibilitam um espaço de conhecimento científico lúdico e interativo, que desperta a curiosidade e contribui para o aprendizado de noções inerentes aos conceitos de óptica difíceis de serem apreendidas somente pelo ensino formal. A compreensão de alguns fenômenos científicos pode ser, então, complementada pela experimentação. “Os museus interativos de ciências são lugares informais e agradáveis, onde os visitantes são estimulados a praticar suas habilidades de explorar o mundo de um ponto de vista científico”, afirma. “Os conceitos, em vez de serem transmitidos, são verdadeiramente percebidos pelo visitante.”


O estudo de Grazielle foi dividido em três partes. Primeiramente, foram selecionados dois museus de ciência no estado do Rio de Janeiro: o Espaço Ciência Viva (ECV), no bairro da Tijuca, e o Centro de Ciências e Cultura (C4) do CEFET Química, em Nilópolis. Ambos tiveram seus módulos interativos (especificamente os que trabalham conceitos de óptica) avaliados em termos de condições para o ensino. No ECV, a pesquisadora optou por projetar e construir um novo espaço físico, que contribuísse para a correta interação com os seis aparelhos (remodelados e com novos cartazes explicativos) e que abrigasse experimentos que necessitavam da ausência de luz. Já no C4, foram desenvolvidos seis aparatos portáteis (sendo quatro reproduções daqueles utilizados no ECV), com o objetivo de utilizá-los em escolas posteriormente. 


Após essa etapa, 167 alunos da 7ª e 8ª séries do ensino fundamental de escolas públicas próximas aos museus foram convidados a participar de atividades com os aparatos experimentais, passando, antes e depois da interação, pelo preenchimento de questionários e entrevistas individuais, que serviram para medir as modificações ocorridas no entendimento dos conceitos de óptica trabalhados. “As mudanças nas respostas dos alunos sugeriram um impacto favorável após a intervenção experimental”, comenta Grazielle. “Foi possível observar transformações nas concepções prévias dos participantes, bem como constatamos um grande interesse por parte dos estudantes em saber mais sobre os fenômenos de óptica”.


Na última fase do projeto, quatro meses após a intervenção, dez alunos de uma das escolas participantes foram escolhidos aleatoriamente para se submeterem a uma técnica de lembrança estimulada, que visava avaliar a fixação do conhecimento transmitido pela experiência. “Esta etapa da pesquisa nos trouxe resultados muito significativos”, destaca a pesquisadora. “Observamos que muitos detalhes sobre o funcionamento de cada aparato ainda estavam em suas memórias e notamos um entendimento mais profundo dos fenômenos científicos registrados”.


Para Grazielle, é de suma importância que os professores incluam em suas práticas pedagógicas visitas com os alunos aos museus de ciências ou encaminhem os estudantes a esses espaços. “Os museus e centros de ciências da atualidade abarcam diversas responsabilidades com a sociedade”, diz. “Suas estratégias de atividades são voltadas para o fim do monopólio intelectual, cultural e ideológico, atuando como um mecanismo de inclusão social e contribuindo para a ruptura com os cânones vigentes”.


Professores cariocas desconhecem importância de museus de ciências


A pesquisa de Grazielle também avaliou o grau de conhecimento sobre a existência e funções de museus de ciências na sociedade. Durante a coleta de dados, a pesquisadora conversou com professores e notou que grande parte deles nunca tinha ouvido falar de ambientes de ensino não formal como o Museu de Astronomia e Ciências Afins, o Museu da Vida ou o Espaço Ciência Viva, todos no Rio de Janeiro. “Esse fato também foi constatado a partir das respostas dos alunos à indagação de onde eles ouviram falar sobre centros de ciências”, acrescenta. “De um total de 162 entrevistados, os professores aparecem em apenas 3% das respostas”.


“Diante desse quadro, percebemos que os professores não discutem a relevância desses ambientes com seus alunos”, afirma Grazielle. A pesquisadora também esclarece que os centros e museus de ciências localizados no Rio de Janeiro, apesar de apresentarem propostas de tornar a ciência acessível à sociedade, de divulgar e de melhorar o conhecimento para um número cada vez maior de pessoas, ainda estão restritos a uma pequena parcela da população: a que reside no centro urbano da capital. “Os estudantes das comunidades mais carentes, como os da Baixada Fluminense, ainda desconhecem as atividades realizadas por essas instituições de ensino não formal”.


Grazielle ressalta, então, a necessidade de implementação de atividades promotoras de divulgação científica em todos os municípios do Brasil. “Projetos itinerantes, como o que realizamos na presente pesquisa, com oficinas, palestras e exposição de módulos interativos, bem como debates científicos nas instituições escolares, praças públicas, clubes e shoppings, podem minimizar a ausência de museus de ciências em municípios mais distantes das capitais brasileiras”, recomenda.

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