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24/12/2005

Pesquisadores da Fiocruz descrevem ninfas de nova espécie de barbeiro

Catarina Chagas


Um trabalho publicado em novembro pela revista Annals of the Entomological Society of America detalha as fases larvais do Linshcosteus karupus, espécie encontrada no sul da Índia e coletada na cidade de Kalakkadu, no estado de Tamil Nadu. Apesar de não estar envolvido na transmissão da doença de Chagas - ainda não identificada no continente -, o inseto habita áreas próximas às cidades e pode ser um potencial transmissor do Trypanosoma cruzi, protozoário causador da moléstia.


Embora os principais estudos do gênero descrevam barbeiros já importantes para a área médica, o parasitologista Cleber Galvão, do Laboratório Nacional e Internacional de Referência em Taxonomia de Triatomíneos do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), enfatiza a relevância do trabalho: "Hoje, vemos que espécies antes consideradas silvestres, que há cinco anos atrás eram desprezíveis do ponto de vista epidemiológico, já preocupam as autoridades em saúde". Quando a nova espécie foi descoberta, em 2000, o exemplar coletado estava infectado por um tripanossomatídeo de ratos, o que reforça sua capacidade de transmissão. "Podemos especular que se, no futuro, o T. cruzi chegar à Índia, a doença americana pode ser estendida ao Velho Mundo", completa o pesquisador, que coordena a pesquisa.


O L. karupus faz parte de um grupo de seis espécies de barbeiros hematófagos só encontradas na Índia e se diferencia dos barbeiros comuns pela ausência do sulco estridulatório, estrutura localizada no tórax e que, quando friccionada pelo aparelho bucal, produz um ruído na tentativa de afastar possíveis predadores. Do ponto de vista morfológico, no entanto, o novo inseto é muito parecido com a maior parte das espécies de Triatomas encontradas nas Américas e em outras partes do mundo.


Segundo Galvão, a descrição das cinco fases das ninfas é importante para a vigilância e o controle da doença de Chagas porque, em qualquer momento de sua vida, os insetos podem ser infectados e transmitir o T. cruzi. "Tradicionalmente, os barbeiros são descritos na forma adulta, quando apresentam características diferenciais marcantes, como cores fortes", justifica. "Já nas fases larvais, as diferenças são mais sutis. Então, se um agente de saúde for a campo e encontrar apenas ninfas, não saberá dizer com segurança a espécie dos exemplares encontrados e portanto, se estão diretamente envolvidos no ciclo transmissor da doença ao homem". Das 136 espécies de barbeiro já conhecidas, apenas cerca de 20 têm as formas larvais totalmente descritas.

A descrição das ninfas foi executada segundo a morfometria geométrica, método estatístico pioneiro que consiste na análise por computador de fotografias dos exemplares estudados. Com a nova ferramenta, os pesquisadores pretendem, no futuro, gerar uma base de dados que permita aos especialistas inserir uma nova foto e receber do programa um parecer sobre qual a espécie da larva em questão. O trabalho foi feito em parceria com pesquisadores da Escola Londrina de Medicina Tropical e Higiene (Inglaterra) e da Universidade de Connecticut (Estados Unidos).




Pistas para antigas investigações


Além de ajudar a traçar novos meios para a identificação dos insetos, a descoberta e a descrição do L. karupus colocam lenha em uma fogueira já acesa por outros cientistas: a da filogenia ou história evolucionária dos barbeiros. "Como a doença de Chagas é exclusivamente americana, sempre se pensou que os barbeiros evoluíram nas Américas", conta Galvão. "Por isso, estabeleceu-se uma hipótese de que o grupo que chegou ao Velho Mundo teria sido levado até lá por meio dos ratos que infestavam os navios à época das Grandes Navegações". Essa hipótese é reforçada porque uma das espécies que habita o Velho Mundo, o Triatoma rubrofasciata, está intimamente associada a ratos. Após chegarem ao novo hábitat, os barbeiros teriam derivado nas seis espécies que atualmente são encontradas por lá.


Por outro lado, o recém-descoberto L. karupus pertence a um gênero diferente dos barbeiros americanos, o que pode sugerir que as espécies tenham surgido na Índia. Os principais defensores dessa hipótese argumentam que os cinco séculos que se passaram desde o período das Grandes Navegações seriam um tempo muito curto para tamanhas mudanças evolutivas. "Mas ainda podemos pensar que, em determinado momento, o Linshcosteus atingiu a Índia, se isolou geograficamente e se diferenciou, formando esse novo gênero", acrescenta o pesquisador. "Um motivo para acreditar nisso é que, segundo estudos moleculares, o T. rubrofasciata, encontrado nas Américas, é a espécie mais próxima do L. karupus". A questão, embora muito discutida na literatura, ainda não tem resposta definitiva.

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