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04/05/2012

Cartilha em forma de quadrinhos alerta sobre encalhe de mamíferos aquáticos

Filipe Leonel


Traduzir a riqueza da cultura do ribeirinho amazônico em relação aos mamíferos aquáticos, mas também a sua necessidade de proteção são os principais objetivos da cartilha Nem tudo que cai na rede é peixe, desenvolvida pelo Grupo de Estudos de Mamíferos Aquáticos da Amazônia (Gemam) do Museu Paraense Emílio Goeldi. O material é resultado de um trabalho de pesquisa realizado na Ilha de Marajó, nas localidades de Soure e Salvaterra, e na Ilha de Algodoal, em Maiandeua, no litoral do Pará, com coordenação técnica do pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) Salvatore Siciliano. A cartilha foi desenvolvida na forma de história em quadrinhos, com uma linguagem acessível aos pescadores e alerta para o cuidado e a preservação dos mamíferos aquáticos da região.






O trabalho de pesquisa que resultou no material teve início em 2006, com a criação do Gemam. A ideia inicial era conhecer o mundo dos botos, baleias, golfinhos e peixes-boi no litoral do Pará e, até os dias de hoje, o grupo faz o monitoramento desses animais e incentiva a participação dos moradores e pescadores nas áreas visitadas do litoral paraense. “O trabalho inicial buscava estudar a interação dos mamíferos marinhos com os pescadores da região, tanto em relação aos aspectos positivos, como quais informações eles tinham sobre essas espécies, quanto aos aspectos negativos, como o seu encalhe nas redes de pesca”, segundo uma das autoras do projeto, Renata Emin-Lima.


O objetivo principal, segundo ela, era que os próprios pesquisadores se reconhecessem a partir do material e das suas falas. A cartilha foi lançada em março de 2012 e, após o seu lançamento, os pesquisadores voltaram às comunidades para ‘devolver’ o produto. “Podemos afirmar que os próprios pescadores validaram os dados da nossa pesquisa. Eles se reconheceram no material e, dessa forma, ficou mais fácil tê-los como aliados na preservação dos mamíferos aquáticos".


A cartilha conta a história de dois botos da Baía do Marajó e os acidentes causados pela captura acidental com redes de pesca. Assim como as toninhas, que correm risco de extinção, principalmente por causa das redes de pesca e da poluição dos mares e fazem parte de uma campanha desenvolvida pela Ensp e pelo jornal O Globo para promover iniciativas de preservação do cetáceo, o boto cinza é a segunda espécie mais capturada nas redes. O tema será discutido na conferência Rio+20, cuja intenção é colaborar para que a população se conscientize sobre a limpeza das praias e a preservação ambiental.


Trabalho superou a expectativa dos pesquisadores


Para Siciliano, organizador da campanha das toninhas na Rio+20 e coordenador técnico da cartilha, “ela traduz um pouco da riqueza da cultura do ribeirinho amazônico em relação aos mamíferos aquáticos, mas também da sua necessidade de proteção. O forte imaginário popular amazônico sobre os botos é colocado em pauta para ser tratado sob o aspecto científico, mas igualmente valorizando e respeitando as culturas locais”.


Para Maura Elisabeth Moraes de Sousa, membro do Gemam e uma das autoras do projeto, o trabalho superou algumas expectativas. "Como sabíamos que os pescadores eram quem tinha maior interação com os mamíferos aquáticos, resolvemos buscar informações sobre o conhecimento que eles tinham em relação aos animais e o que eles pensavam sobre a interação com a pesca. Percebemos, então, durante o trabalho, o valor desse conhecimento tradicional e temos orgulho em admitir que superamos nossas expectativas. Por aqui começamos uma parceria estimulada nessa relação de confiança; hoje eles mesmos começam a dizer o que precisa ser mudado para que tanto os peixes como os mamíferos aquáticos não sumam".


Publicado em 3/5/2012.

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