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20/03/2015

Relator especial da ONU sobre água e saneamento fala sobre escassez de água

Renata Moehlecke


As vésperas do Dia Mundial da Água (22/3), a Organização das Nações Unidas (ONU) chama atenção para a potencial crise do abastecimento de água em todo mundo: as reservas hídricas podem sofrer um déficit de 40% até 2030. A informação foi divulgada em novo relatório publicado nesta sexta-feira (20/3). O documento, intitulado Água para um mundo sustentável, propõe que a solução para impedir a diminuição de água no planeta e garantir o abastecimento da população mundial seria aprender a usar o recurso de forma sustentável. Além do encolhimento das reservas, o relatório também aponta que 748 milhões de pessoas no planeta não têm acesso a fontes de água potável e que 20% dos aquíferos mundiais já são explorados excessivamente, o que pode gerar graves consequências como a erosão do solo e a invasão desses reservatórios pela água salgada.

Em entrevista à Agência Fiocruz de Notícias (AFN), o pesquisador da Fiocruz Minas e relator especial da ONU sobre água e saneamento, Léo Heller, fala sobre as possíveis causas da crise de falta de água e de como o Brasil se insere neste contexto. Heller também comenta como a escassez de água pode afetar a saúde das populações e as maiores dificuldades trazidas pelas mudanças climáticas para a administração da oferta de água.  

AFN: Quais os principais fatores que tem levado à atual crise de falta de água?

Leo Heller: Não se pode falar em crise de falta de água em todo o mundo. As situações são muito diferentes de país para país e mesmo internamente a um mesmo país. Existem situações de abastecimento de água ineficiente, que são provocadas por diferentes fatores. O relatório destaca, corretamente, que parte importante do problema é explicado pela ineficiente e inefetiva gestão dos serviços de abastecimento de água, pelo descomprometimento dos governos no financiamento e pela falta de priorização na formação de pessoal e de capacidade institucional.

O relatório divulgado pela ONU alerta que muitos países estão perto de enfrentar situações de desespero e conflito por falta d'água. Como o Brasil se enquadra neste contexto?

Heller: A atual situação de estiagem no Sudeste brasileiro deve ser tomada como uma lição, advertindo que o país deverá se preparar para situações como estas, que tendem a ser mais frequentes. Sobretudo, governos e prestadores de serviços de abastecimento de água devem aperfeiçoar seus planejamentos, de forma a levar em conta a maior imprevisibilidade do clima e a necessidade de preparar os sistemas de abastecimento de água para essas situações críticas. Penso que o alerta é de que, menos que pensar em que a água do mundo está ficando mais escassa, deve-se pensar que as variações climáticas estão ficando menos previsíveis e que a água pode ficar menos disponível, em termos quantitativos e qualitativos, também em locais acostumados com a abundância.       

Segundo os dados apresentados, até 2030, a demanda por água doce no planeta deverá ser 40% maior do que a oferta. Como a escassez de água pode afetar a saúde das populações?

Heller: A escassez de água pode afetar a saúde humana de diversas formas. Existem abundantes evidências de que a ingestão de água contaminada e a indisponibilidade de água em quantidade suficiente são determinantes de numerosos casos de doenças infecciosas e parasitárias em todo o mundo, bem como de diversos agravos com origem na contaminação química da água. Muitas enfermidades transmitidas por vetores, como dengue, leptospirose e esquistossomose, também tem nas condições de saneamento parte de seus fatores explicativos. 

Quais são as maiores dificuldades atuais para a administração da oferta de água em meio às mudanças climáticas?

Heller: Eu diria que as maiores dificuldades se encontram na falta de cultura e preparo dos gestores em lidar com situações de mudanças, não somente as climáticas, mas também as demográficas, sociais, culturais, econômicas, ambientais... É necessária uma nova postura para que o planejamento seja mais capaz de ser dinâmico e flexível o suficiente para adaptar os sistemas às condições de mudanças, cada vez mais intensas e de difícil previsão. 

Leia matéria com Leo Heller no portal da ONU Brasil.

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