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22/11/2017

Coletânea contribui para o desenvolvimento de abordagens psicossociais na atenção básica

Fernanda Marques (Editora Fiocruz)


Uma coletânea de temas e perspectivas que condizem com as necessidades concretas da atenção básica em saúde mental: assim é o livro Saúde Mental para a Atenção Básica, que sistematiza conceitos e busca transformá-los em ferramentas para a renovação das práticas e a construção de abordagens psicossociais. O livro se dirige, especialmente, aos trabalhadores da saúde da família e a todos aqueles que, mesmo sem pertencer ao mundo psi, querem se aproximar, entender e cuidar das pessoas que vivem experiências de sofrimentos psíquicos. “Não somos um grupo que quer dizer aos profissionais da saúde da família como agir diante das pessoas que passam a ser identificadas como casos de saúde mental. Procuramos escrever para ajudá-los a pensar sobre histórias de vida, sobre aquilo que fazem, sobre possibilidades de ressignificar suas práticas”, afirma a organizadora da coletânea, a terapeuta ocupacional e doutora em saúde pública Nina Soalheiro, professora e pesquisadora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz).

O livro é um dos produtos de pesquisa no âmbito de um programa com foco no fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e na investigação dos principais problemas de saúde que atingem a população brasileira. A pesquisa foi feita buscando-se uma aproximação entre as questões acadêmicas e as práticas de cuidado no território, entendido como o espaço onde são conduzidas as ações de saúde. Optou-se por “metodologias colaborativas que pudessem desconstruir a ideia do pesquisador como enunciador de verdades ou um avaliador neutro do trabalho das equipes”, explica Nina. Nessa abordagem, a pesquisa passa a ser compreendida como um instrumento para reflexões sobre os processos de trabalho. O resultado é um livro que propicia a “coletivização dos saberes e práticas no contexto do diálogo entre saúde mental e atenção básica”.

O trabalho das equipes de saúde da família demanda um saber cuidar que seja interdisciplinar, integralizado e territorial. Mesmo sem se dar conta, esses trabalhadores da atenção básica, muitas vezes, contribuem para o campo da saúde mental, considerando-se, por exemplo, o potencial terapêutico e as possibilidades de ação advindas de uma escuta cuidadosa dos usuários. Desse modo, os autores do livro objetivam dar visibilidade ao que já é feito, potencializar tais práticas e avançar na inclusão da saúde mental para a atenção básica. “Como organizadora deste volume, explicito o desejo de contribuir para o reconhecimento e a invenção das abordagens psicossociais na atenção básica sem aprisionamento a verdades psicologizantes ou medicalizantes, no universo tão complexo do processo saúde/doença/cuidado”, resume Nina.

Os capítulos abordam uma variedade de questões que costumam ficar silenciadas ou negligenciadas, como as temáticas do suicídio, o planejamento de estratégias de prevenção e as linhas de cuidado que valorizam a vida; as práticas de redução de danos para uma assistência integral às pessoas que fazem uso prejudicial de álcool e outras drogas; os efeitos do envelhecimento, notadamente em um cenário de diminuição da disponibilidade da família, a tradicional instância cuidadora; e os riscos da medicalização da vida. Todas as questões são abordadas tendo como eixo do cuidado a (des)institucionalização, entendida como um cuidado em liberdade, em instituições abertas, onde pessoas em sofrimento psíquico não ficam em isolamento. Muito pelo contrário: elas são acolhidas por práticas integrativas e coletivas para a promoção da saúde. 

“Temos consciência que os saberes psis não esgotam as possibilidades de abordagens da subjetividade e todas as questões que envolvem o processo de adoecimento com sofrimento psíquico. Outras dimensões estão envolvidas, como a cultura, o ambiente e o território de vida; outros saberes e práticas podem contribuir para o acolhimento e tratamento, como, por exemplo, a medicina chinesa e as práticas corporais”, destaca Nina. “E já sabemos disso o suficiente para valorizar a importância das abordagens que propõem a superação da dicotomia corpo/mente, promovendo novas conexões tão necessárias ao nosso campo”, completa a organizadora.

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