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26/05/2020

Dicionário de Favelas completa um ano no combate à Covid-19

Icict/Fiocruz


O Dicionário de Favelas Marielle Franco nasceu há um ano como uma ferramenta cujo foco era a preservação da memória, identidade e saberes das favelas cariocas. Com a chegada do novo coronavírus ao Brasil, tornou-se também instrumento de ação coletiva dos moradores desses territórios, através da criação de uma página específica sobre a pandemia, que vem sendo espaço importante para a divulgação de ações de solidariedade, troca de informações e apoio às iniciativas para enfrentar a doença. Além disso, a página principal está sendo traduzida para inglês e espanhol, o que deve ampliar a rede de solidariedade.

Página principal da plataforma está sendo traduzida para inglês e espanhol, o que deve ampliar a rede de solidariedade (imagem: Divulgação)

 

Lançada em abril de 2019 na Fiocruz, a plataforma colaborativa virtual, também chamada de Wikifavelas, chegou nesta semana à marca de 500 verbetes (a meta inicial era de 150 em três anos), e já conta com 322 colaboradores cadastrados. 

“Como um projeto acadêmico que foi financiado, tínhamos metas a cumprir, e ultrapassamos em mais de três vezes os objetivos para verbetes escritos, número de participantes e quantidade de favelas. Houve uma acolhida grande tanto por parte dos centros de memórias e museus locais, que já trabalhavam com a construção e preservação da identidade política e coletiva desses espaços, quanto por profissionais das universidades que estudam o tema”, afirma a cientista política Sônia Fleury, coordenadora do projeto.

Instrumento contra a pandemia

A pesquisadora conta que a abertura do espaço sobre a pandemia dentro da plataforma, em março desse ano, deu outra dimensão ao trabalho. “No início, surgiram produções das favelas em forma de denúncia, apontando que as políticas públicas de prevenção ao coronavírus não tinham um olhar sobre a condição dessas pessoas. Reunimos também artigos e vozes da própria favela sobre as ações que estão sendo tomadas pelos moradores, do tipo ‘nós por nós’”, diz.

A equipe de pesquisadores compilou as informações (reportagens, fotos, vídeos, comentários, artigos, ensaios e reflexões acadêmicas) sobre os impactos do coronavírus na vida das favelas, e organizou o material em tópicos tais como ajuda e apoio às favelas, notícias sobre os impactos da doença nas comunidades, depoimentos de moradores e coletivos locais e artigos de opinião. Além das denúncias, há também conteúdo sobre a organização da população e a mobilização por solidariedade. “A plataforma, que antes tinha como foco a preservação da memória, da construção de identidade e história, de repente mudou de significado e passou a ser um agente de transformação coletiva, das favelas e para as favelas. Tivemos um aumento do número de acessos por causa da questão do coronavírus. Na seção de ajuda, por exemplo, foram oito mil em uma semana”, revela Sônia.

A busca por informações também veio de fora do país, de possíveis doadores que não conseguiam entender as informações em português. “Por isso, resolvemos traduzir a página, começando pela parte mais importante, a de ajuda. Contamos com a colaboração preciosa de professores e alunos do Observatório da Tradução da Universidade Federal do Espírito Santo”, explica a coordenadora da produção de verbetes do Dicionário, Palloma Valle Menezes. 

O apoio de diversas instituições, segundo ela, mostrou-se uma decisão acertada, que tem cumprido papel importante no contexto atual. “O entendimento sobre as desigualdades do país e as especificidades da questão da habitação nas favelas é central no planejamento das ações para lidar com os efeitos da pandemia”, afirma.

Produção intelectual das favelas

A novidade do Dicionário de Favelas é, na opinião de Sônia, a organização de todo esse conteúdo, que já existia, em um mesmo ambiente, socializando o acesso. “A plataforma potencializa isso, traz esses conhecimentos que estavam fragmentados em locais e instituições diferentes para um mesmo ambiente virtual, em que a participação é coletiva”, argumenta. Para a pesquisadora, a crescente adesão de novos parceiros reforça a ideia do conhecimento como bem comum. “Não há, para nós, nenhuma distinção entre o intelectual da favela e o intelectual que estuda a favela. Há toda uma produção intelectual dos próprios territórios, seja ela em tradição oral ou documental”, completa. 

A proposta desde o início visava a ampliar a forma de olhar para esses espaços das cidades, com um trabalho construído a partir da articulação entre lideranças das comunidades e pesquisadores que já faziam estudos nas favelas. “Ao longo desse ano, atuamos em vários desses territórios junto com os moradores, produzindo oficinas, debates, conversas, para que fossem criados os verbetes sobre a história desses locais, sobre a política, a saúde pública, a educação. São diversas temáticas, que tentam mostrar a pluralidade necessária para pensar e compreender as favelas, muito além do debate sobre violência que em geral é enfatizado pela grande mídia”, ressalta Palloma.

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