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22/11/2019

Projeto Fioantar terá duração de quatro anos

Pamela Lang (Agência Fiocruz de Notícias)


Apesar da enorme variedade de organismos e de um ecossistema rico e diversificado, ainda são poucos os estudos sobre o impacto desses ambientes sobre a saúde dos animais, dos seres humanos, ou sobre o próprio continente e a América do Sul. Ao longo dos quatro anos de duração do projeto, os pesquisadores irão estudar vírus, bactérias, fungos, líquens, micobactérias e helmintos, que podem estar presentes nos animais que vivem ou circulam pela região, nas águas, nos solos, nas rochas e ainda no permafrost, que é um tipo de solo encontrado na região do Ártico e formado por terra, gelo e rochas que estão permanentemente congelados.

Neste primeiro verão antártico, a Fiocruz teve duas operações autorizadas: uma equipe com seis pesquisadores partirá em dezembro e outra com mais quatro seguirá em janeiro (foto: Divulgação)

 

Para isso, a Fiocruz está reunindo pesquisadores experientes de oito de seus laboratórios. O trabalho será enorme e os desafios também. Isso porque as operações na Antártica só podem acontecer de novembro a fevereiro, já que, nos outros meses do ano, os navios não conseguem transitar pela região.

Outro desafio são as coletas, que devem seguir um rígido padrão para não prejudicar as pesquisas. A área é vasta, há muito material a ser coletado, pode ser demorado caminhar pela neve de um ponto a outro e são poucos os pesquisadores que estarão em cada operação, que deverão realizar todo o trabalho com muitas camadas de roupa de frio e mais os equipamentos de proteção individual, necessários para as coletas.

Todas as operações são planejadas com bastante antecedência e devem ser autorizadas pela Marinha. Neste primeiro verão antártico, a Fiocruz teve duas operações autorizadas. Uma equipe com seis pesquisadores partirá em dezembro e outra com mais quatro seguirá em janeiro. Cada equipe permanecerá no local durante três semanas e será acompanhada, cada uma, por uma dupla de comunicadores, sendo um jornalista e um cinegrafista, para registrar as descobertas e desafios de se fazer pesquisa em um ambiente tão diferente do Brasil.

Como as equipes que poderão ir à Antártica serão reduzidas, não será possível enviar um especialista de cada um dos oito laboratórios. Por isso, os dez pesquisadores que seguirão nessa primeira fase deverão ser capazes de coletar amostras para todos os demais colegas. A discussão sobre os equipamentos necessários, os protocolos de coleta a serem seguidos, ou seja, a definição de como os materiais serão coletados e armazenados, e a preparação de toda a equipe levou quase um ano. 

“Por ser um projeto multidisciplinar, vários laboratórios estão envolvidos. No início, nos reuníamos toda semana, pelo menos um de cada área, e ia juntando as metodologias, dizendo o que cada um queria do projeto, o que iria fazer com esse projeto. Com isso, fomos juntando as necessidades de cada um para definir o material de coleta”, explicou a bióloga Luciana Trilles, do Laboratório de Micologia do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz). 

Exploração além das fronteiras nacionais

Qual a importância, para o Brasil, dos vírus, bactérias, fungos, micobactérias e helmintos encontrados da Antártica? Vírus, bactérias e fungos são grandes conhecidos da população em geral, mas por que a Fiocruz vai procurar por eles tão longe? E helmintos, micobactérias e líquens, as pessoas sabem o que são? 

Os vírus influenza, conhecidos por vírus da gripe, por exemplo, têm grande importância para a saúde pública, sendo responsáveis pela morte de cerca de 600 mil pessoas por ano em todo o mundo. As pandemias de vírus da gripe que aconteceram até hoje foram provocadas por amostras de vírus influenza rearranjadas, ou seja, novos vírus que surgiram a partir de um rearranjo genético e que carregam tanto uma parte dos vírus que atingem apenas aves e mamíferos, como parte dos vírus que atingem apenas os seres humanos. 

No ambiente antártico, a convivência entre diferentes espécies de animais, inclusive o homem, cria um ambiente favorável para o surgimento de novos vírus, devido a possíveis coinfecções entre os vírus encontrados em diferentes espécies de aves e outros animais. Por isso, os pesquisadores da Fiocruz irão coletar amostras desses vírus em fezes de aves e de outros animais e, com isso, será possível classificar a diversidade desses vírus naquele ambiente, identificar amostras que já tenham sofrido esses rearranjos genéticos, a introdução de vírus influenza humanos na Antártica, bem como vírus que tenham potencial de dispersão em outros continentes próximos, na população humana ou em rebanhos de aves ou suínos.

A pesquisa também servirá para entender melhor o ambiente Antártico e as mudanças pelas quais ele vem passando e que poderiam afetar o clima do Brasil (foto: Divulgação)

 

Assim como os vírus, as bactérias também são capazes de sobreviver em condições extremas e temperaturas muito baixas. Regiões da Sibéria, consideradas as mais frias da Rússia, já vem sofrendo surtos recorrentes de antraz em animais e humanos, uma doença grave causada pela bactéria Bacillus anthracis que pode levar à morte em poucos dias. Estudiosos indicam que esses surtos estariam ligados ao descongelamento do permafrost e à exposição de solos contaminados, antes inacessíveis. Além da possibilidade de investigar a existência dessa e de outras bactérias prejudicais aos seres humanos na camada de permafrost da Antártica, pesquisadores da Fiocruz também poderão avaliar se as aves migratórias da região poderiam estar carregando essas bactérias para outros continentes.

Também é conhecido que nem todas as bactérias fazem mal à saúde humana e que algumas delas podem, inclusive, beneficiar o ambiente. É o caso de algumas espécies de micobactérias, um gênero específico de bactérias que têm uma capacidade biorremediadora. Elas utilizam os elementos contaminantes dos solos ou da água, a exemplo do carbono, como fonte de energia, servindo como descontaminantes químicos naturais e reduzindo o impacto ambiental por poluentes. A busca por espécies de micobactérias na Antartica trará, portanto, um conhecimento maior sobre a capacidade biorremediadora neste ambiente, possibilitará identificar prováveis novas espécies e apontar também para alguns riscos relativos à presença de espécies nocivas à saúde humana.

Outro aspecto importante para a pesquisa será entender melhor o ambiente Antártico e as mudanças pelas quais ele vem passando e que poderiam afetar o clima do Brasil e, consequentemente, a saúde humana. Para isso, novamente os especialistas terão que recorrer às fezes e carcaças de aves e animais vertebrados para identificar a presença de helmintos, também chamados de vermes parasitas. Os helmintos não conseguem sobreviver fora de um hospedeiro, que podem ser animais ou humanos. Por meio do estudo desses parasitas, os pesquisadores poderão, portanto, entender melhor as várias espécies, as adaptações sofridas, as mudanças e os impactos ambientais e climáticos.

Já para o estudo de fungos, o objetivo será encontrar aqueles que podem causar o que os pesquisadores chamam de micoses sistêmicas e oportunistas invasivas, que vem sendo consideradas uma ameaça à vida humana ao longo das últimas três décadas. Normalmente, associa-se fungos a ambientes quentes e úmidos, como os de clima tropicais. No entanto, uma epidemia ocorrida em 1999, no Canadá, de criptococose por um fungo que pensava-se estar restrito a regiões tropicais, e a descoberta de um outro fungo na cidade de Washington, nos Estados Unidos, em 2015, que até então só havia sido encontrado em regiões desérticas, demonstra a capacidade que esses organismos têm de se adaptar, sobreviver e causar doenças em novos ambientes, possivelmente estimulados pelas mudanças climáticas em todo o mundo. 

O continente antártico ainda é uma região pouco estudada, principalmente em relação aos fungos causadores de micoses endêmicas do Brasil de grande importância para a saúde pública, como a histoplasmose, criptococose, coccidioidomicose e a paracoccidioidomicose. Assim como no caso das bactérias, nem todos os fungos fazem mal à saúde. Os líquens ou também chamados de fungos liquenizados são marcadores de ambientes limpos e sem poluição.

O estudo de líquens e sua resistência à radiação ultravioleta e extremos de temperatura e unidade podem produzir conhecimentos com potencial para o desenvolvimento de novas tecnologias (foto: Divulgação)
 
 

Coloridos e com diversas formas, os líquens se formam pela união entre algas e fungos e podem estar ser encontrados em rochas, árvores e florestas, geleiras, desertos, folhas e muros. Como eles são extremamente sensíveis a alterações ambientais, não sobrevivem em locais com altos índices de poluição ou radiação. Portanto, enquanto a presença desses organismos indica baixo índice de poluição, o seu desaparecimento sugere um agravamento do impacto ambiental. Além de importante marcador de biodiversidade e mudanças climáticas na Antártica, o estudo de líquens e sua resistência à radiação ultravioleta e extremos de temperatura e unidade podem produzir conhecimentos com potencial para o desenvolvimento de novas tecnologias. 

A missão desses bravos pesquisadores não será pequena. Mas ao longo de cada desafio que encontrarão pelo caminho, eles carregarão os 120 anos da instituição que representam, a memória dos grandes pesquisadores que os antecederam e contarão com o apoio e trabalho árduo de técnicos, analistas, tecnologistas e alunos de pós-graduação, sem os quais nenhuma missão ou descoberta seria possível.

22/11/2019

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